Reconheço em Padre Lodi a têmpera de um vocacionado ao martírio, ou seja, um destemido, verdadeiro infante das coisas do Alto. Enfim, alguém em quem se possa confiar porque confia totalmente nos princípios do Evangelho. Por isso - mas não só! - ele luta bravamente contra o abortismo, a gaystapo e toda suposta "cultura" que se apresente com o fito (velado ou descarado) de destruir a instituição familiar.
Nesse meio tempo, o Padre também luta ardorosamente em favor da Tradição católica, do Magistério multissecular e da verdadeira vida em Deus. É um homem da Igreja, não poderia ser diferente. Ou poderia?
Afinal, o que se deve esperar das atitudes, dos gestos, das posições de homens que falam em nome de Deus? Eis o teor do email que acabo de receber de Padre Lodi e que reproduzo com gosto, com muita satisfação, por ser próprio de pessoas que não temem dizer a verdade, ainda que tal coragem possa ajuntar-lhe mais inimigos diante das trincheiras da vida.
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Os “von Galen” brasileiros
(“Eu vos digo, se eles se
calarem, as pedras gritarão” — Lc 19,40)
Pe.
Luiz Carlos Lodi da Cruz.
A história
está repleta de omissos, no meio dos quais, de vez em quando, surge uma voz
inquietante. No século XVI, na Inglaterra, um rei resolve separar-se do Papa e
criar sua própria Igreja em seu país. A omissão é generalizada. Excetuam-se
algumas vozes, como a de São João Fischer e São Tomas Morus, que derramam seu
sangue pela verdade.
O atual Papa
Bento XVI, na época Cardeal Ratzinger, em 1985 recordava que na Alemanha
existia uma conferência episcopal já nos anos 30: “Pois bem, os textos
realmente vigorosos contra o nazismo foram os que vieram individualmente de
prelados corajosos. Os da Conferência, no entanto, pareciam um tanto
abrandados, fracos demais com relação ao que a tragédia exigia”.

Um dos
prelados corajosos daquela época foi o Cardeal Clemens August von Galen
(1878-1946), bispo de Münster, apelidado por sua bravura “o leão de Münster”.
Recebeu a consagração episcopal em 1933, o mesmo ano em que Hitler subia ao
poder. Escolheu como tema “
Nec laudibus
nec timore”, o que significa que “nem por louvores nem por temor” ele
estava disposto a se desviar dos caminhos de Deus. Em sua primeira carta
pastoral, na Quaresma de 1934, desmascarou a ideologia nacional socialista
(“nazista”). Em um sermão na Catedral de Xanten, em 1936, acusou
abertamente o regime nazista de discriminar os cristãos, encarcerá-los e até
matá-los. Von Galen foi um dos bispos que Pio XI convidou a Roma em janeiro de
1937 para conversar sobre a situação na Alemanha e preparar a encíclica
“Mit Brennender Sorge” (“Com grande preocupação”) em que o Papa acusou
o nazismo perante a opinião mundial. O ponto culminante da resistência aberta
de Clemens von Galen ao nazismo foram três famosos sermões, que pronunciou no
verão de 1941, em que condenou os abusos do Estado e reclamou o direito à
vida, à inviolabilidade e à liberdade dos cidadãos. Fustigou severamente o
assassinato de deficientes físicos e mentais por considerá-los
“improdutivos”.
Os sermões
provocaram sensação internacional:
Cópias foram enviadas para os soldados alemães nas linhas de frente; a BBC
[emissora de rádio inglesa] leu trechos no ar. O líder nazista local exigiu
que von Galen fosse executado. A irmã do bispo, uma freira, foi detida e
trancada no porão do convento, do qual ela escapou subindo e saindo pela
janela.
O próprio
von Galen esperava ser martirizado. Mas algo extraordinário ocorreu: Os
nazistas recuaram. Os sermões do bispo estimularam o público: enfermeiras e
assistentes hospitalares começaram a obstruir o programa. Então, Hitler
decretou uma ordem suspendendo que adultos deficientes fossem mortos nas câmaras
de gás.
Embora os
nazistas tivessem continuado a matar os deficientes, principalmente as crianças,
eles mataram menos e faziam todo o possível para esconder o que faziam.
Conforme Evans escreveu, não fosse pelas ações de von Galen, os nazistas
teriam prosseguido sem impedimentos em sua meta de livrar a sociedade alemã
“daqueles que continuavam a ser um peso sobre ela”.
O Bispo, que
esperava ser martirizado, “sofreu muito porque em seu lugar levaram a campos
de concentração 24 membros do clero secular e 18 do clero regular, dos quais
10 perderam a vida”.
O Papa Pio
XII criou-o cardeal em 18 de fevereiro de 1946, como reconhecimento por sua
atitude intrépida frente ao nazismo. Retornando a Münster, pronunciou seu último
discurso nas ruínas da Catedral em 16 de março diante do entusiasmo de uma
grande multidão. No dia seguinte, caiu gravemente doente. Morreu em 22 de março
do mesmo ano. Foi beatificado pelo Papa Bento XVI em 9 de outubro de 2005.
Nesse mesmo
ano, a Human Life International criou
o “prêmio Beato von Galen” para homenagear aqueles que se destacam na
coragem em defender a vida humana.

Dois bispos
brasileiros já foram agraciados com esse prêmio. O primeiro foi Dom José
Cardoso Sobrinho, na época arcebispo de Olinda e Recife, que em 2009 lutou com
todas as suas forças para defender a vida de três crianças: uma menina de
nove anos, vítima de violência sexual, e dois bebês em seu ventre. Apesar de
todo o empenho do arcebispo, os gêmeos, cada um com cerca de vinte semanas de
vida, foram cruelmente assassinados por médicos do CISAM (Centro Integrado de
Saúde Amaury de Medeiros) em 04/03/2009 contra a vontade do pai da menina. O
crime de Recife foi amplamente elogiado pela imprensa e o Ministério Público
omitiu o seu dever de oferecer denúncia. Dom José Cardoso foi criticado não só
pelos abortistas, mas por alguns de seus próprios irmãos no episcopado, de tal
modo que foi necessário um “esclarecimento” oficial por parte da Congregação
para a Doutrina da Fé em 11/07/2009, reafirmando a doutrina da Igreja e
defendendo o corajoso arcebispo.

O segundo
brasileiro a receber esse prêmio foi Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, Bispo de
Guarulhos (SP), que durante as eleições presidenciais de 2010, teve a coragem
de instruir seus diocesanos a negarem seu voto à candidata Dilma Rousseff (PT),
por sua postura favorável à liberação do aborto.
O prêmio foi entregue em 14 de novembro de 2011, durante o II Encontro
Internacional pela Verdade e pela Vida, promovido pela
Human Life International em São Paulo.
A postura de
Dom Bergonzini foi admirável. Em 26 de agosto de 2010 a Presidência e a Comissão
Representativa dos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB, aprovaram um documento
intitulado “Apelo a todos os brasileiros
e brasileiras”[7], recomendando a sua
“ampla difusão”.
O texto do
“Apelo” dizia: “Recomendamos
encarecidamente a todos os cidadãos e cidadãs brasileiros e brasileiras
[...] que, nas próximas eleições, dêem
seu voto somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à
descriminalização do aborto”. Além disso, o texto trazia também vários
fatos demonstrando que o Partido dos
Trabalhadores é favorável à descriminalização do aborto.
A pedido de
Dom Bergonzini, dois milhões de exemplares do temível documento foram
impressos em uma gráfica de São Paulo. Incomodada pela divulgação daqueles
fatos – contra os quais não havia argumentos – a candidata Dilma requereu
ao Tribunal Superior Eleitoral que apreendesse o material impresso.
Lamentavelmente o Ministro Henrique Dias (TSE) concedeu uma liminar arbitrária
determinando a apreensão de todo aquele material informativo. A ilegalidade da
liminar foi reconhecida pelo Ministério Público Eleitoral em 30/10/2010.
Somente em 01/03/2011, por decisão do Ministro Arnaldo Versiani, os folhetos
foram devolvidos à Mitra Diocesana de Guarulhos.
Dom Luiz
Gonzaga permanece firme em sua missão de anunciar a verdade e denunciar o erro.
Em 22 de outubro de 2010 ele havia escrito que “o PT é o partido da mentira e da morte”,
referindo-se ao recurso do partido à inverdade para obter seus propósitos
abortistas. Agora, em 22 de outubro de 2011, afirma com todas as letras que “PT
e Dilma são o pai e a mãe das mentiras e da corrupção”.
E diz destemidamente:
“As
pessoas estão com medo de dar os nomes dos responsáveis. Não tenham medo de
dizer: Fora PT, Fora Dilma, Fora (Fulano de Tal), seja governador, prefeito,
deputado, vereador, enfim, fora todos os que consomem até 69 bilhões de reais
em atos de corrupção, sugados dos impostos pagos com muito sacrifício pelos
brasileiros. Fora os que querem afastar o povo dos princípios morais cristãos
e mantê-lo sem educação, sem segurança e, principalmente, sem atendimento de
saúde suficiente para garantir uma vida digna para cada brasileiro – a vida
é uma dádiva divina –, desde o momento da fecundação até a morte natural
na velhice. [...] Não tenham medo!
Vamos, juntos, restaurar os princípios morais cristãos e Mudar o Brasil”.
Na
Alemanha a era nazista passou, deixando atrás de si milhões de vítimas, graças
a resistência de heróis como o Bem-aventurado Clemens von Galen.
No
Brasil, a era petista também há de passar, deixando atrás de si uma multidão
de bebês abortados, de crianças e adolescentes corrompidos e de famílias
desestruturadas. Mas o fim do atual pesadelo dependerá da atitude de heróis
como Dom Luiz Gonzaga Bergonzini.
Anápolis,
4 de dezembro de 2011.
Pe.
Luiz Carlos Lodi da Cruz.